FUNPAJ – Fundação Padre José Koopmans - A insensibilidade das plantadoras de eucalipto secou o encanto da natureza da Lagoa Encantada.
Publicado em 08/02/2017 ás 09:53h por João Luiz Monti

A insensibilidade das plantadoras de eucalipto secou o encanto da natureza da Lagoa Encantada.

Imagem 1: Lagoa Encantada totalmente seca pelas árvores sugadoras do eucalipto.

IMG-20160329-WA0022Fonte: Acervo FUNPAJ, 2015.

Depois de plantadas milhares de árvores de eucalipto no entorno da lagoa, situada à margem da BA-290 sentido Teixeira de Freitas – Alcobaça, logo após o Povoado de São José de Alcobaça, a Lagoa Encantada secou. Agonizou, desde 2005, aproximadamente, e perdurou por mais de 12 anos até o secamento total. Milhares de plantas, clonadas ou modificadas geneticamente, determinaram o secamento. Com esse resultado, as empresas plantadoras devem estar cumuladas de orgulhos por mais esse resultado de seus planos de manejos – otimistas e sem limites[i] . A utilização dos recursos ambientais e seus técnicos, “certa e excelentemente humanos”, creem que a tecnociência[ii] resolverá os impactos da degradação ambiental, social e econômica a exemplo do que está em curso no Sul da Bahia desde a década de 70.

Um cenário com sustentabilidade proscrita

O Cenário de degradação socioambiental foi instalado à partir dos diversos planos de desenvolvimento dos governos militares pós 1964 e causaram a perda de biodiversidade em diversos biomas brasileiros. Mas, exemplifiquemos as intervenções em 2 biomas: 1º) Na Amazônia: com a devastação da Floresta Amazônica para implantar a imensa e inconclusa Rodovia BR-230 – Transamazônica; os vários poços de exploração de petróleo no interior da floresta, a construção das 3 primeiras usinas hidrelétricas de Tucuruí, Ilha Solteira e Itaipu; 2º) Nesta região de Mata Atlântica: abertura da Rodovia BR 101 com destruição da florestas de marginais, permissão estimulada do extrativismo madeireiro, instalação de centenas de serrarias e, sucessivamente, abertura de incentivos financeiros e fiscais para os plantios extensos do eucalipto[iii].

Durante todo o período nefasto da ditadura civil-militar – que vitimou centenas de brasileiros que lutavam contra o aparato da repressão, da censura e pela volta da democracia – as intervenções no meio ambiente foram desastrosas! Mesmo nos anos finais do regime em “desaceleração”, já no início da década de 90 “se desenharam os principais instrumentos que configuram o Zoneamento Industrial e a Política Nacional do Meio Ambiente. Estes instrumentos estão, de certo modo, ainda em vigor no país, de forma semelhante, contudo mais deturpado, ao qual também se instalou em nível nacional em relação ao chamado “desenvolvimento” das plantações de eucalipto.

Para acelerar tais formas de desenvolvimento, os bancos nacionais do Governo Federal não somente incentivaram as atividades predatórias, mas associaram-se ao capital das indústrias que se instalaram no Brasil a partir de conglomerados[iv] atualmente formados e em franca expansão. Conglomerados constituídos por empresas como Veracel (BA), Suzano (SP/BA/MA/PI), Klabin (SP), Eldorado (MS), dentre outros, estão irregularmente licenciados, mas, “devidamente” autorizados pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), com atividades frouxamente fiscalizadas e dificilmente criminalizadas. Órgãos que estão por tada parte do território nacional, como os órgãos de justiça nesta região instalados, mas que para atuar em diligência da constituição e da lei precisam ser “provocados”. Provocados por ações de cidadania que, muitas vezes, expõem à vida sob risco da sua erradicação criminosa daqueles que propugnam, defendem um modelo de concentração, injustiça e degradadão da vida do planeta.

Imagem 2: Monocultura em larga escala plantada a poucos metros no entorno da lagoa Encantada.

IMG-20160329-WA0017Fonte: Acervo FUNPAJ, 2015.

A chegada dessa árvore exótica no Brasil

Originário da ocenaia e outras regiões, o eucalipto foi introduzido no Brasil em 1848, para secamento de brejos e a partir de 1904 para a produção de lenhas para uso nas ferrovias, etc., mas foi amplamente experimentado após o lançamento do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) – elaborado pelo governo ditatorial de Ernesto Geisel e posteriores. O PND originou diversos programas, e dentre estes, o Programa Nacional de Papel e Celulose (PNPC), o I (1974) E II (1987), que promoveu a abertura de financiamentos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e, posteriormente Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os Bancos estimularam investimentos oriundos do capital internacional (sueco, finlandês e norueguês) e, inclusive, integralizaram o seu capital, atualmente, com investimentos que alcançam entre 25 a mais de 30%, tornando o Governo Federal acionista das diversas empresas do setor. Portanto, garantindo investimento e retorno e facilitando os plantios e produção de papel e celulose.

E, assim, os plantios de eucalipto experimentais iniciados em São Paulo foram, posteriormente, disseminados pelo Brasil afora. E, quase na mais absoluta transgressão da legalidade, que é normatizada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e outros órgãos ambientais. Exemplos dessa transgressão, como o Estudo de Impacto Ambiental da VERACEL no Sul da Bahia,  não faltam. Os crimes ambientais cometidos a condenaram na Justiça Federal em Eunápolis a pagar à UNIÃO R$ 20 milhões (Processo nº da ACP 2006.33.10.005010-8) caso que se alonga no tempo. Posteriormente, no Espírito Santo, Minas Gerais e Bahia e, atualmente, as “fronteiras” do monocultivo das empresas plantadoras de àrvores exóticas em escalas extensas de monoculturas também chamadas de “deserto verde”, se estendem para os estados de Mato Grosso, Piauí, Maranhão, aceleradamente e com vasta destruição socioambiental.

Impactos socioambientais

Os impactos mais açodados são a perda de florestas, a erradicação da fauna, a contaminação por venenos e secamento dos mananciais de águas superficiais e do subsolo, a poluição e o secamento do principal rio pela captação das águas (2.160m3s) o Rio Mucuri pelos efluentes da fábrica SUZANO, a proibição dos extrativistas de adentrarem nas matas, a perseguição pelas milícias armadas privadas e públicas que protegem o patrimônio das empresas, etc.

São impactos socioambientais sentidos, principalmente, pelas comunidades de agricultores e populações tradicionais – Ribeirinhos, Índios e Quilombolas – que vão sendo destituídos de suas terras de inúmeras maneiras: Trocas simples, trocas incentivadas pelas “benesses” da vida urbana, grilagens que envolveram, até mesmo, assassinatos de posseiros forçando o êxodo rural e a extinção, inclusive, de algumas comunidades. Essa é a realidade das comunidades expulsas, mas resistentes e reivindicantes de seus territórios no chamado Território de Identidade Extremo Sul, ou simplesmente Sul da Bahia.

Todo esse processo foi acompanhado, investigado e monitorado por dezenas de companheiros/as socioambientalistas no estado da Bahia e no Brasil, por dezenas de organizações não governamentais.

Pessoas como o Padre José Koopmans, do Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Extremo Sul da Bahia (CDDH), Isaak Almeida Filho, do Centro de Desenvolvimento Agroecológico Terraviva (CENTRO TERRAVIVA), Chico Mendes, do Sindicato dos Trabalhadores rurais (STR), Ricardo Carrere, do World Rainforest Movement (WRM), dentre outros que foram tragados por influência desse antimodelo de desenvolvimento/crescimento que não leva à evolução da espécie humana e da natureza.

Como estes, outros ambientalistas lutaram até tornarem-se encantados, viajantes cósmicos nesse planeta tão aviltado pelos donos do boi, da soja, do gado, do ouro e das vidas naturais mais biodiversas que tanto protegeram, defenderam com gestos concretos, de palavras e ações, de discursos e poesias.

O adeus aos mitos da Lagoa Encantada

Imagem 2: Leito ressequido e sem vida da Lagoa Encantada, resultado da confiança excessiva e incompleta aplicação da tecnociência otimista contrária aos limites do crescimento.

IMG-20160406-WA0002 Fonte: Acervo FUNPAJ, 2015.

A Lagoa Encantada, mitológica, pois carregada de subjetividades culturais (lagoa funda, sem fundo, peixes dourados que voam por sobre suas águas em lua cheia, gemidos de afogados, etc.) alguns contados até com vieses de interesse político-econômicos de limitação de acesso, não é apenas mais um exemplo da degradação socioambiental. É o modus operandi das empresas plantadoras, comerciais e industrias que se sustentam com a baixa e precária empregabilidade, que ampliam o lucro, que concentram a terra e produzem riquezas para poucos e passivos ambientais, como narrado anteriormente, para mais de 760 mil pessoas formam a população do Sul da Bahia (IBGE 2010).

Imagem 4: Vida e morte se entrecruzam no contraste da beleza da flor no leito ressequido

IMG-20160406-WA0005Às ‘Lagoas Encantadas’ do Sul da Bahia e seus encantados o nosso culto de louvor no registro de uma imagem de uma natureza desfalecida, mas resistente. Vida e morte, beleza e degradação  para refrescar a memória daqueles que aqui, ainda, vivem ou para a posteridade dos sobreviventes serem instigados a refletir sobre outras alternativas. Não só próximas e exemplificadas na vida natural, como as tecnologias da agroecologia, mas, porque são econômica e socialmente viáveis.

O registro de mais uma das tantas narrativas de vivas lembranças, de uma ecologia tão versada, tão cantada, tão encantada como nos versos do Poeta Trabalhador Ijail Amaral:

Amanhã, sem o brilho da lua a decadência

Sem lagoas encantadas, sem sonho sem nada

Sem povoados, seus carreiros sua vivência

Sem os pequenos plantios as leiras, sem roçada

Sem os belos festejos e a cultura da essência

Com a monocultura da morte já espalhada sem cantos sanhaços assum prestos cardeiais

Só traumas – tragédias urbana e dramas sociais. (AMARAL, 1998. Poesia, prelo – Nos Caminhos de São José de Alcobaça, a Lua e a Lagoa Encantada).

Respeito e cuidado com a Natureza! Um até breve Lagoa Encantada da Vila de São José de Alcobaça que fenece pelas atividades milionárias do agronegócio de papel e celulose de vidas brasileiras também encantadas.

 

Fontes:

[1]Desenvolvimentistas contrários à corrente do crescimento zero. Artigo científico de Ademar Ribeiro Romeiro na Livraria Eletrônica Scielo: http://ref.scielo.org/86w924

[1] Conceito de Tecnociência: Artigo científico de Adilson Koslowski. O termo cunhado por Hottois significa a ciência produzida no contexto da tecnologia e por essa dirigida. Disponível em: https://revistas.ufg.br/philosophos/article/viewFile/36115/18928

[1]Matéria livre na Blog Vida Sustentável, disponível em:

http://sustentareviver.blogspot.com.br/2014/04/ditadura-militar-e-seus-impactos.html

[1]Conceito de conglomerado: Por fim, um conglomerado de empresas é um grupo formado por várias empresas com atividades diversas através de uma estrutura comum., disponível em: http://conceito.de/conglomerado

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1 Comentário

  1. Marcelo Portuária disse:

    A incompreensão dos cidadãos também é um efeito do processo degradatório; junto a isso, o interesse econômico corresponde ao chamado “desenvolvimento a qualquer custo”.
    Isso portanto, faz com que toda uma cadeia biológica se esgote ou a duras penas, tenham que migrar afim de manterem vivos, os seus laços de relação e vida com o meio ambiente.
    Devemos construir uma base de ação prática que minimize os efeitos de degradação evidente; tais como (plantio e reparação) em áreas degradadas; é um projeto demorado, mas depende somente de nós, românticos que ainda acreditam na sofrida Casa-Mãe […]!

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