FUNPAJ – Fundação Padre José Koopmans - Porque é mais fácil questionar o método do Atlas da Violência e não o que gera ilhas de estagnação e poder?
Publicado em 18/06/2017 ás 09:54h por João Luiz Monti

Porque é mais fácil questionar o método do Atlas da Violência e não o que gera ilhas de estagnação e poder?

Imagem: Monocultura do eucalipto próximo do Bairro Colina Verde – Teixeira de Freitas. Acervo FUNPAJ, Junho 2017

Quando saímos a campo para visitar comunidades rurais percebemos, claramente, a situação dos campesinos – entre estes os Índios e Quilombolas – que continuam resistindo com suas atividades agrícolas, subsistindo com suas culturas tradicionais. Mas, cada vez mais, percebemos que as vilas, povoados, distritos e as cidades do Território Extremo Sul  (por causa de um certo método de desenvolvimento econômico) vão se tornando ilhas entre as imensas plantações de eucalipto e cana-de-açúcar.

São ilhas de subdesenvolvimento, de dificuldades crescentes e de estagnação econômica (IPEA/CNDR, 2012). A monocultura do eucalipto vai tornando vilas, povoados, distritos e cidades em ilhas de muitas formas de violência: Assaltos, estupros, assassinatos, contaminação por agrotóxicos, secamento dos mananciais, dificuldades para deslocamento de pessoas e da produção agrícola no campo. Mas, não somente no campo. Na cidade também as várias formas de violências têm aumentado substancial e negativamente. Seja pela forma de concentração de terras, de riquezas, poder político das grandes empresas plantadoras ou ampliadas pela má administração do poder público, que parece não conseguir realizar uma gestão dos serviços públicos que limitem estas outras formas de violência: o lixo, os esgotos, as violações de direitos humanos ou o rompimento abrupto desses direitos quando do assassinato de tantas pessoas no município de Teixeira de Freitas.

Entretanto, as autoridades e representantes da alta sociedade, alheias a outros métodos de desenvolvimento econômico possíveis – aqui entendida como evolução, progresso da humanidade e tão rentáveis do ponto de vista econômico ou mais seguros do ponto de vista social e da saúde coletiva do que este implantado no Sul da Bahia que se denomina de agronegócio – contribuem para esconder tais formas de violência criticando o método de análise da pesquisa do Atlas da Violência divulgado pelo IPEA/FBSP e de Waiselfisz.  Estes métodos demonstram a gravidade da violência, principalmente, por assassinato. A maioria de jovens como informam os estudos e pesquisas, tanto do Mapa da Violência do pesquisador Júlio Jacobo Waiselfisz (FLACSO BRASIL, 2016) quanto do Atlas da Violência e seus muitos colaboradores (IPEA/FBSP. 2017). São métodos científicos que, apesar de indicarem as diversas formas de violência  que ressaltam a morte, estão voltados para refletir a importância da vida.

Os mesmos que criticam o método usado pelo Atlas da Violência não se dão conta da Importância de discutir outro método possível gerador de riquezas e rendas com segurança e sustentabilidade para, de fato, criar o progresso, a evolução de formas de viver mais equilibrados e testadas técnicas de produção como as que realizadas pelo método que propõe a Agroecologia.

E, pior, as autoridades de órgãos públicos do estado e representantes da alta sociedade Teixeirense (líderes religiosos, gestores, técnicos do sistema e, mesmo a sociedade-povo mantida à margem, etc.) se recusam a questionar de onde vêm os recursos financeiros que alimentam este “modelo”, senão falso, questionável de desenvolvimento econômico. O modelo baseado no agronegócio, extrativista e predador que, além de constituir-se em latifúndio influencia, corrompe e  incide drasticamente por meio das chamadas “reformas legais” sobre a estrutura social, trabalhista e previdenciária do país, que gera tantas tragédias, tantas formas de degradação.

Além de não questionar, dão mostras claras de que esta forma de relação com o Poder Público é uma forma de aceder ao poder privado, pessoal, individual. E junto com esta visão obtusa de enxergar o desenvolvimento, a evolução ou o progresso, dão mostras claras de que a corrupção tão difundida nas mídias brasileiras é apenas uma questão político-partidária, de distintas posições antagônicas que não estão preocupadas com a evolução dos seres humanos. Mas, sim com o acesso às linhas de financiamento legais como as que oferece o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou ilegais como as propinas que subtraem as riquezas produzidas pelos trabalhadores brasileiros do campo e da cidade.

Diante deste quadro de estagnação ou de retrocesso da cultura humana provocado por aqueles que apenas querem aceder ao poder, ao status e ao luxo esquecendo-se de que todos tem o mesmo direito de viver em paz e usufruir dos bens naturais e das riquezas produzidas,  parece ser mais cômodo questionar aqueles que expõem as feridas e processos de desigualdades provocadas pelo tal sistema de desenvolvimento do que transformá-lo por dentro, expondo suas falhas ideológicas, tecnológicas e científicas e modificando-as para o bem da humanidade. Ao que parece é mais fácil resguardar os nichos de acesso ao poder empurrando para baixo da estrutura piramidal da sociedade o povo e suas extremas dificuldades, como as violências que levam à morte e colocam a cidade-ilha da monocultura do eucalipto que vem se tornando Teixeira de Freitas e inserindo-a no ranking nacional como a 7ª cidade entre as 30 do país que mais matam jovens no auge de sua força produtiva. O melhor método é o da evolução, do progresso da vida e não o desenvolvimento pela morte.

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1 Comentário

  1. Roberto Carlos Barboza disse:

    O imediatismo de políticos preocupados única e exclusivamente com os próprios bolsos, doa a quem doer seus métodos espúrios, leva à consolidação de um modelo de progresso comprovadamente exaurido e falido. Resistir aos ataques do agronegócio é às conversas prá boi dormir politícos medíocres é nosso dever e nossa obrigação, em respeito a tudo que herdamos e pela consciência que não podemos deixar um deserto é um país de miseráveis como legado.
    #NãoPodemosRenunciar a nossa história ! ! !

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